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O prêmio CLARA ZETKIN procura
lembrar a vida de uma mulher que se destacou na luta pelos direitos
femininos.
Clara Zetkin nasceu em 5 de julho de 1857 em Wiederau, Alemanha, pequena
cidade onde a principal atividade era a indústria têxtil e a esmagadora
maioria dos habitantes tecelões.
Ativista incansável, escrevia em
jornais e revistas em prol da causa feminina, principalmente das mulheres
operárias têxteis.
Viveu em uma época onde as
mulheres trabalhavam arduamente e as condições nas fábricas eram péssimas:
jornadas de 12, 14 e até 16 horas (a semana de trabalho era de seis dias, em
casos extremos incluindo como 7o. dia as manhãs de domingo), muitas destas
fábricas não possuíam refeitório e outras sequer banheiros.
Copenhagen,
agosto de 1910.
Em Copenhagem, no ano 1910,
durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, por iniciativa
da jornalista alemã Clara Zetkin (foto), mulheres vindas de 17 países
adotaram a proposição de criar um "Dia Internacional da Mulher". O
objetivo era canalizar os esforços na luta para obtenção do direito ao voto
feminino. A proposta foi aceita por mais de 100 mulheres, inclusive pelas 3
primeiras mulheres eleitas para o Parlamento Finlandês. Não foi fixada,
porém, nenhuma data específica.
1911
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Como resultado
das decisões tomadas em Copenhagen no ano anterior, foi marcado pela
primeira vez como Dia Internacional da Mulher, no dia 19 de março, na
Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça, aonde mais de 1 milhão de mulheres e
homens participaram de manifestações. Além do direito de voto e de
participação pública, foi pleiteado o direito de trabalhar, de treinamento
vocacional e do fim da discriminação no trabalho.
 Seis
dias mais tarde, no
sábado
25 de Março de 1911,
ocorreu o trágico incêndio da
fábrica de camisas Triangle, em Washington Place, Nova York. Cento e vinte e
nove trabalhadoras, jovens imigrantes italianas e judias, morreram devido à
falta de segurança nas instalações.
Esta
tragédia - e as terríveis condições em que ocorreu - passou a ser sempre
lembrada por ocasião das celebrações do Dia Internacional da Mulher,
oficialmente fixado em 8 de Março pela Assembléia Geral da ONU, a partir de
1975.
Uma
controvérsia
Como vimos, Clara Zetkin propôs,
em 1910,
a criação de um Dia Internacional da Mulher sem definir uma
data precisa e um ano antes do incêndio da fábrica Triangle.
No Brasil e em alguns países da América
Latina acreditou-se que Clara teria proposto o
8 De MARÇO
para lembrar operárias mortas num outro incêndio que teria
ocorrido em Nova Iorque em 1857.
É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se
incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres, mas o processo de
instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas
socialistas americanas e européias há algum tempo e foi ratificado com a
proposta de Clara Zetkin.
A
luta de Clara Zetkin continua viva ainda hoje na luta por melhores condições
de vida para todas as mulheres, especialmente àquelas relacionadas às
atividades têxteis.
O prêmio CLARA ZETKIN,
portanto, tem esse objetivo: homenagear mulheres que se destaquem na área
têxtil.
Na reportagem a seguir, vemos um grupo de mulheres que
ainda conservam uma forma antiga e artesanal de fiar,
preservando uma tradição de mais de 90 anos, elas tecem mantas de lã, além
de dar conta de todo o trabalho no sítio.
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PERFIL
A casa das quatro
fiandeiras
TEXTO: SUELY GONÇALVES (internet)
FOTOS ERNESTO DE SOUZA |
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Alice, cardando a lã já
lavada
e fervida,... |
Ao pé da carreira
de bambu a estrada se estreita de repente. Aí é um tal de abrir porteira
que não acaba mais e enfrentar a lama que a chuvarada esparrama na
trilha até chegar ao Bairro do Sertãozinho, em Pedralva, ao sul de Minas
Gerais, bem na divisa com a pequenina São José do Alegre.
Ali, até onde a vista alcança, tudo é igual. Roças de milho e feijão,
pastos viçosos onde um gadinho sem raça rumina sob a chuva, trechos de
mata fechada, casas brancas erguidas sobre altos alicerces de pedra.
Mas, para surpresa de quem passa, um cântico atravessa a paisagem
triste: 'Com minha mãe estarei na santa glória um dia, junto à Virgem
Maria, no céu triunfarei'.
A voz pequena nem chega a espantar a passarada,
mas serve para guiar o viajante até o sítio Cubatão. É Negota, nascida
Benedita Carvalho, quem canta na varanda da casa de janelas azuis.
Enquanto louva a Virgem os dedos ligeiros vão ajeitando os fios
esticados nas complicadas engrenagens de um velho tear. 'No céu, no céu,
com minha mãe...' A voz se cala, os dedos abandonam os fios para
apertar, diante da porteira novinha em folha, as mãos dos visitantes que
chegam sacudindo a calma da manhã.
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..que depois é
transformada em
fio na roda tocada por Ana Vitória |
Magrinha, vergada sob o peso
de seus 78 anos de vida, Ana Vitória aparece na varanda. Sorri quando a
filha, ainda entre as moitas de flores amarelas do jardim, apresenta as
visitas. Pronto. A pasmaceira do dia foi irremediavelmente rompida.
Francisca deixa as
panelas fervendo sobre o fogão de lenha, estende a mão e põe no rosto
corado um sorriso largo. É o seu jeito de dar as boas vindas a quem
chega. Alice aponta no meio do milharal e repete o gesto da irmã.
Assim como Francisca ela
nasceu e cresceu em um mundo sem som. A surdez de nascença nunca deixou
que elas ouvissem o vai-e-vem da roda que, girando, transforma flocos de
lã em longos fios.
Um som familiar que
invadiu a vida de Ana Vitória aos 16 anos, quando ela, que recebeu no
batismo nome de rainha, caiu de amores por Vicente Bernardo, moço
correto e trabalhador que, por uma dessas coincidências da vida, tinha
nome de príncipe. Diferente das histórias
de fada, foi morar com a sogra Maria Cândida de Jesus, ali mesmo, no
Cubatão, em uma casinha bem mais simples do que essa que Vicente
construiu e que ainda hoje abriga a família. Tocada pelo pé de Maria
Cândida a roda girava sem parar, cuspindo léguas e léguas de fios.
Colaboração e Pesquisa :
Maria Liliana Inês Emparan Martins Pereira / Natural de Buenos Aires -
Argentina, naturalizada brasileira, Pedagoga pela USP 1993 , Mestre em
Psicologia e Educação pela Faculdade de Educação da USP 2004, Sócia do
Instituto Lien de São Paulo -SP , ex-membro da ONG de Olho No Futuro,
com trabalho premiado pela UNESCO pelo atendimento aos EGJ - Espaço
Gente Jovem - da Prefeitura Municipal de São Paulo ( trabalho
voluntário e social de atendimento a crianças com dificuldades de
aprendizagem - Projeto Prisma) |
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